Há poucos dias saíram os resultados de mais um estudo HBSC -(Health Behaviour in School-aged Children). Este é um estudo colaborativo da Organização Mundial de Saúde (OMS) que pretende analisar os estilos de vida dos adolescentes e os seus comportamentos nos vários cenários das suas vidas. Iniciou-se em 1982 e neste momento conta com 51 países entre os quais Portugal. Portugal realizou o primeiro estudo nacional em 1998, que se repete de 4 em 4 anos, sendo o mais recente em 2022, ao qual se refere este relatório (relatórios disponíveis em: http://www.aventurasocial.com).
O estudo de 2022 contou com a participação de 40 agrupamentos de escolas do ensino básico e secundário de todo o país continental, num total de 452 turmas. A amostra é representativa para os anos de escolaridade em estudo. Responderam 5809 estudantes, do 6º (29,5%), do 8º (33,5%) e do 10º (37%) ano de escolaridade, dos quais 50,7% do género feminino.
Os resultados deste ano são ainda mais preocupantes e devem fazer-nos refletir sobre o que temos feito em termos de prevenção da doença e promoção a saúde mental dos nossos jovens.
Apresentamos alguns dos dados retirados do relatório:
Dos 5809 jovens que participaram no estudo 72.3% refere sentir-se FELIZ face à sua vida, mas 27,7% sente-se INFELIZ.
Relativamente ao humor, 11,6% dos jovens sente-se TRISTE.
Quase 15% dos jovens, no último ano, sentiu-se SOZINHO a maior parte do tempo.
Quanto à perceção de stress, 26.4% dos jovens refere que na maior parte das vezes sente que não é capaz de controlar coisas importantes da sua vida e 25,1% sente que as suas dificuldades se acumulam de forma que não as consegue ultrapassar.
9,1% dos jovens sente MEDO quase todos os dias e 19,7% nunca ou quase nunca se sente confiante das suas capacidades para lidar com os problemas.
E 30,3% dos jovens refere NÃO GOSTAR DA ESCOLA! O espaço onde passam a maior parte do seu tempo... Que escola é esta que lhes estamos a oferecer?
Relativamente ao género, foram identificadas diferenças estatisticamente significativas entre os rapazes e as raparigas em relação à saúde mental e bem-estar. Verificou-se que as raparigas revelam um menor índice geral de bem-estar, uma pior perceção de qualidade de vida, uma menor satisfação com a vida e mais stresse quando comparadas com os rapazes.
Por outro lado, verificou-se que os jovens mais novos (6º ano de escolaridade) revelam um maior índice geral de bem-estar, uma melhor perceção de qualidade de vida, mais satisfação com a vida, menos stresse e menos sintomas físicos e psicológicos, quando comparados com os mais velhos (8º e 10º anos de escolaridade).
Quando comparados com os resultados dos anos anteriores, verifica-se um agravamento da perceção de bem-estar dos jovens. A percentagem de jovens a sentir-se INFELIZ aumentou de 18.3% para 27.7%, assim como a percentagem de jovens que diz sentir-se tão triste que não aguenta (em 2018 era 5.9% e agora em 2022 é de 8.7%). Os jovens também parecem sentir-se mais nervosos do que em 2018 (13.6% face aos 21% de 2022).
Estes são dados que nos devem preocupar enquanto pais, professores, educadores, sociedade em geral, pois deve fazer-nos pensar no que temos feito para promover o bem-estar das nossas crianças e jovens. Será que temos dado as condições necessárias para que eles aprendam a lidar com as situações de stress, com as suas emoções e com o mundo em mudança?
Vamos ficar simplesmente à espera que o mundo mude ou à espera que os jovens aprendam nas redes sociais aquilo que é suposto nós ensinarmos desde pequenos?
Até quando é que nos vamos desresponsabilizar do nosso papel enquanto adultos promotores de competências básicas, como o saber dar nome ao que sentimos, regular o comportamento e as relações com os outros ou saber resolver problemas? Até quando vamos continuar a pensar que essas são competências inatas ou que são aprendidas naturalmente?
O que podemos fazer para mudar estes números preocupantes?
É urgente promover a educação emocional junto das nossas crianças e jovens de uma forma estruturada, consistente e transversal aos vários contextos. É preciso ensinar, treinar e modelar ferramentas e competências para lidar com a realidade atual, na qual somos confrontados cada vez mais com a incerteza, com inúmeros desafios completamente desconhecidos até então e que nos obrigam a pôr à prova as nossas capacidades de adaptação e resiliência.
No nosso blogue temos vários artigos sobre como promover as competências socioemocionais e a saúde mental das crianças e jovens. Para além disso, no nosso site temos várias sugestões de atividades e programas, tanto para contexto escolar como familiar.
A educação emocional é a chave e pode fazer a diferença!