Não podemos controlar o mundo, mas podemos ajudar as crianças a lidar com ele. (Universo das Emoções)
Vivemos tempos desafiantes, com a guerra, a instabilidade económica, a incerteza face ao futuro… realidades que entram, de forma direta ou indireta, no dia a dia das famílias.
Mesmo quando se tenta proteger as crianças, elas sentem. Sentem nas conversas, no tom de voz mais tenso, na preocupação que se instala. Sentem nas mudanças de rotina, nas inquietações dos adultos. E, muitas vezes, sentem tudo isto… sem compreender exatamente o que se passa.
Vivemos também num tempo de excesso de informação. Notícias em direto, imagens repetidas, opiniões constantes, conteúdos nas redes sociais… tudo acontece à nossa frente, a toda a hora. E, muitas vezes, sem filtro. Mesmo quando as crianças não estão diretamente expostas, acabam por ter contacto com fragmentos dessa realidade, pois ouvem conversas, passam por televisões ligadas, veem imagens ou títulos nas redes sociais dos adultos… E aquilo que recebem é, muitas vezes, intenso, desorganizado e difícil de compreender.
O problema não é apenas a quantidade de informação. É também a forma como ela chega. Sem contexto, sem explicação adequada à idade, e muitas vezes carregada de emoção, esta exposição pode gerar:
medo difuso (“algo mau está a acontecer… mas não sei bem o quê”)
sensação de insegurança
pensamentos catastróficos
dificuldade em distinguir o que é próximo do que é distante
Para uma criança, o que aparece num ecrã pode parecer muito mais próximo e imediato do que realmente é.
Quando o mundo à volta parece mais incerto, é natural que também o mundo interno das crianças fique mais desorganizado.
Podemos começar a observar:
maior irritabilidade
dificuldade em lidar com frustração
necessidade constante de atenção
mais ansiedade ou sentimentos de insegurança
Nem sempre estas reações são imediatamente associadas ao que está a acontecer “lá fora”, mas a verdade é que as crianças absorvem o ambiente emocional que as rodeia.
Não conseguimos controlar o mundo… mas podemos preparar para ele
É aqui que a aprendizagem socioemocional ganha ainda mais importância. A sua função não é evitar dificuldades, mas sim ajudar a lidar com elas.
Mesmo num contexto incerto, há algo que pode ser desenvolvido e fortalecido: a forma como cada criança reconhece, expressa e gere aquilo que sente.
Quando são trabalhadas de forma consistente, estas competências permitem que a criança:
Perceba o que está a sentir (em vez de ficar perdida no meio da emoção) - Ao reconhecer as suas emoções, a criança começa a dar sentido ao que se passa dentro de si. Isto é essencial quando o mundo exterior é confuso ou assustador.
Saiba como se acalmar e regular (em vez de reagir impulsivamente) - Não se trata de evitar emoções difíceis, mas de aprender o que fazer com elas. A autorregulação permite responder de forma mais ajustada, mesmo em momentos de maior intensidade emocional.
Consiga expressar preocupações e medos (em vez de os guardar ou transformar em comportamentos desafiantes) - Quando a criança encontra espaço para falar sobre o que sente, diminui a probabilidade de essas emoções se manifestarem através do comportamento mais desajustado.
Desenvolva empatia e consciência social (compreendendo que existem realidades diferentes da sua e aprendendo a respeitá-las, a colocar-se no lugar do outro) - Ao entrar em contacto com o que se passa no mundo, a criança pode começar a perceber que outras pessoas vivem situações diferentes das suas. Com apoio do adulto, esta compreensão pode transformar-se em maior sensibilidade ao outro, respeito pela diversidade e maior empatia e compaixão.
Desenvolva flexibilidade e pensamentocrítico (sem ficar presa ao pior cenário) - A flexibilidade de pensamento ajuda a criança a não ficar presa a uma única interpretação, especialmente quando essa interpretação é assustadora ou negativa. Por sua vez, o pensamento crítico permite questionar o que vê e ouve, perceber que nem tudo o que aparece é totalmente verdadeiro ou imediato e diferenciar entre realidade e perceção. Com o apoio do adulto, a criança aprende não só a receber informação, mas a pensar sobre ela.
Construa relações seguras (percebendo que não está sozinha com o que sente) - As relações são o principal regulador emocional. Quando a criança se sente compreendida e apoiada, desenvolve maior confiança para lidar com desafios, internos e externos.
Mais do que competências isoladas… Estas capacidades não surgem de forma automática, nem se desenvolvem apenas em momentos específicos.
Constroem-se nas interações do dia a dia, na forma como os adultos respondem e lidam com as suas próprias emoções; nos momentos difíceis, e não apenas nos tranquilos.
Num tempo de imprevisibilidade, e com tanta informação à volta, os adultos tornam-se o filtro emocional e o porto seguro. Não por terem todas as respostas, mas por conseguirem dar sentido ao que está a acontecer, ajustar o que é partilhado e conter o impacto emocional que isso tem nas crianças.
Pequenos gestos que fazem diferença no dia a dia
No meio de tudo o que não pode ser controlado, há pequenas ações que ajudam a criança a sentir-se mais segura e organizada internamente.
Mais do que estratégias isoladas, são formas de estar/agir que constroem segurança emocional.
Validar o que a criança sente - Dizer “é normal sentires-te assim” não aumenta a emoção, mas ajuda a organizá-la. Quando a criança sente medo, confusão ou insegurança, precisa primeiro de sentir que aquilo que está a viver faz sentido.
Manter rotinas sempre que possível - Num contexto de incerteza, as rotinas funcionam como um ponto de referência. Saber o que vai acontecer a seguir ajuda a criança a sentir que nem tudo está fora de controlo. Pequenos elementos previsíveis, como a hora das refeições, o momento de deitar ou um ritual ao final do dia, trazem estabilidade emocional. As rotinas não precisam de ser rígidas, precisam de ser consistentes o suficiente para dar segurança.
Limitar a exposição a notícias - As crianças não têm ainda maturidade para processar grande parte da informação a que estão expostas. Limitar a exposição não é esconder a realidade, mas é proteger a forma como essa realidade chega. Por vezes, o mais importante não é o que a criança vê diretamente, mas o ambiente que se cria à sua volta.
Adaptar a informação ao nível de desenvolvimento - As crianças fazem perguntas e precisam de respostas, mas essas respostas devem ser ajustadas à idade, à capacidade de compreensão e ao estado emocional da criança. O objetivo não é explicar tudo, mas sim ajudar a criança a sentir-se mais segura com aquilo que já percebeu. Uma resposta simples, clara e tranquila é muitas vezes mais eficaz do que uma explicação longa e complexa.
Criar momentos de ligação – Quando o mundo exterior está mais instável, as relações tornam-se ainda mais importantes. Momentos de ligação, como brincar, conversar, partilhar tempo, ajudam a criança a regular-se emocionalmente. Não é a quantidade de tempo que faz a diferença, mas a qualidade da presença. Estar disponível, atento e emocionalmente acessível transmite segurança.
A aprendizagem socioemocional não elimina a incerteza do mundo, mas transforma a forma como lidamos com ela.
E talvez seja isso que mais importa ensinar às crianças: não que o mundo é sempre seguro, mas que existem recursos, dentro de si e nas relações, que as ajudam a enfrentá-lo.